
Naquela noite de Verão, enquanto observava a Lua e sonhava com dias melhores, vi-a a mesma hora de sempre com o porte seguro, percorrer o bairro com o seu passo apressado...enquanto o mundo daquela pacata vila preparava-se para dormir, aquela moça de cabelos negros da cor da noite e olhos escuros saia para trabalhar!
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Imaginava o seu mundo, invejava a sua liberdade de ser quem era, de encarar a vida com a rigidez de uma guerreira!
Nunca soube o seu nome, sua idade e precisamente o número da sua porta, mas sabia que era dançarina, numa dança contínua onde o palco ia consigo para todo o lado!
Na inércia dos meus dias, era lá que queria estar! Na rua doze, onde essa moça misteriosa se apresentava todos os dias, com a sua rotina habitual, mas os aplausos aumentavam, pois ganhava fama e esta fama era intransponível!
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Foi num dia qualquer que peguei em mim e persegui os contornos de sua sombra, e mesmo neste instante deslumbrei-me com a beleza do seu carácter, li em seus olhos a eterna amargura de quem necessita de alcançar horizontes mais longínquos onde o mundo aplauda do alto de uma montanha.
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Entrei neste mundo submerso onde a vida não se encaixa nas similaridades de uma vida sem vida, cabisbaixa como se por detrás daquela porta alguém me fosse reconhecer, desci as escadas e senti a música projectar-me, vibrar e pulsar dentro de mim!
O fumo dos cigarros ocultava a existência daquele palco, sentei-me numa mesa vazia, com um copo vazio, tal e qual a minha alma nesta noite...
E como uma explosão, as vozes se calaram em sorrisos entreabertos num rosto iluminado pela sua presença...ela estava ali, uma personagem totalmente diferente de si, as curvas do seu corpo contornavam os passeios de milhares de vida que esperavam pelo seu encanto, numa dança sensual absorta na música, deu cor aquele lugar, pintando cada rosto com tintas invisíveis!
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O movimento do seu corpo dançava junto a mim, as pétalas dos seus lábios faziam eco na cave dos meus sonhos perdidos, os seios embelezavam a pele num corpo que cimentava o chão, os dedos tocavam os cabelos como ondas em noites de tempestade num erotismo absurdo e imutável, onde a vontade de permanecer dentro de si é o único ar que respiro!
- Bravo!
E as cortinas baixaram...